Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Xeque na Democracia, enviada toda segunda-feira, 12h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.
A cena é de terror. E quando pensamos nas maiores disputas em torno da Inteligência Artificial, raramente pensamos na dimensão física, real, humana que está por trás dessas disputas. Modelos de IA como ChatGPT e Claude parecem vindos de uma força etérea, que vive na nuvem, fora da nossa mundana existência e, portanto, imparáveis, irrefreáveis, irreguláveis.
É por isso que essa história não me sai da cabeça.
Um processo judicial por violação de direitos autorais, movido em um tribunal da Califórnia, nos EUA, revelou a metodologia empregada pela empresa Anthropic para treinar seus modelos de IA com linguagem produzida por humanos.
O processo foi movido por três escritores – Andrea Bartz, Charles Graeber e Kirk Wallace – contra a Anthropic por ter roubado o conteúdo dos seus livros.
Eis o que a empresa fez para alimentar seu robô:
Em fevereiro de 2024, a empresa adquiriu milhões de cópias de livros nos EUA, e para obter o conteúdo – as palavras e frases escritas por seres humanos – rasgou as lombadas, cortou as páginas de cada um deles, ajustando as folhas ao tamanho do scanner. Depois, seus funcionários escanearam cada página através de um software que digitaliza textos, para incluir cada frase lapidada pelos autores na enorme base de dados que treinaria o Claude. Finalmente, aquela pilha de destroços foi picotada e jogada no lixo.
A cena, que relembra a história de Fahrenheit 451 – que retrata uma sociedade totalitária onde livros eram proibidos e queimados – é talvez o maior resumo da distopia que as Big Techs nos oferecem como caminho para o futuro.
Primeiro, porque elas escondem todos os vestígios profanos dos seus modelos de negócio: os trabalhadores do Quênia que adoecem filtrando vídeos e textos com imagens de violências e abusos indizíveis para os modelos de IAs poderem ser treinados, as cidades que estão passando sede porque a água está sendo usada para enormes datacenters, as festas nababescas e temáticas oferecidas para políticos de todo o mundo não atrapalharem seus negócios com leis e regulações.
A destruição de milhares de livros é apenas um destes elementos. Trata-se de uma decisão de negócios, tomada por executivos racionais, que visam superar obstáculos físicos ao desenvolvimento de softwares avançados rapidamente e com o menor custo possível.
No caso da Anthropic, ela precisava de literatura de alta qualidade para treinar seu robô “superior” e estava buscando reproduzir a metodologia empregada antes pelo Google para sua biblioteca virtual. O Google conseguiu argumentar nas cortes dos EUA que criar e disponibilizar uma cópia digital de um livro físico comprado regularmente, seria um uso justo para uma obra.
