“Quanto tá o Cristiano Ronaldo?”
“Trinta reais”
É um absurdo.
Tudo o que você quer é completar um álbum.
A década de 90 era mais fácil. Figurinhas para meninas só se fossem da Moranguinho ou dos ursinhos carinhosos. No máximo, aquela coleção de casal apaixonado te dizendo que amar é alguma coisa.
Mas a vida quis te dar um filho, e o moleque foi inventar de fazer futebol na escola, justo no ano da Copa. Porque o filho da gente precisa ser criança ativa, fazer exercício e aprender a lidar com o coletivo.
Todos os amiguinhos da escola têm o álbum. Não será o seu filho, logicamente, quem vai ficar de fora, correndo o gravíssimo risco de ser uma criança traumatizada por qualquer tipo de privação na infância. Ou de você ser acusada de mãe desnaturada. Ou só mão-de-vaca mesmo.
Mãe e pai, dois zeros à esquerda em assuntos esportivos, nem sabem por onde passa a atual escalação, nem sequer o nome do técnico atual. Só sabem que o Neymar, como sempre, tá com contusão.
Mesmo assim, acharam por bem adquirir o bendito álbum. Baratinho, 30 e poucos reais, uma barganha. Pacote de figurinha, 7 por 7, 1 real cada. Vai que dá.
Chegam em casa com o álbum e algumas figurinhas.
“Será que tem o Cristiano Ronaldo?”, o filho abre empolgado alguns pacotes.
Não, nada de Cristiano. Terminada a leva o filho já não se interessa mais pelas figurinhas novas que ganhou, só quer saber das repetidas.
“Agora eu vou poder trocar com os meus amigos”
Tá aí o aprendizado, seu filho é um arraso, se interessa mais pelas amizades e interação social. Quer fazer parte da roda de amigos. Olha aí, esse álbum vai valer a pena!
Final do dia o pai chega junto, empolgado para colar as figurinhas.
“Esse álbum não tem nem sumário…”
“Vem cá, meu filho, bora aprender a bandeira dos países”, a mãe convoca.
Vermelho, verde, estrelas amarelas. Um país chamado Curaçao. Sem til no ao.
“Onde diabos fica isso?”, a ignorante da mãe pergunta.
“É uma ilha no Caribe”, o pai pesquisa no Google.
Olha aí, o álbum de figurinhas, ensinando geografia.
Figurinhas espalhadas no tapete, os três estabelecendo a melhor estratégia de colar. “Olha aqui atrás, checa as letras do país e o número.”
“Esse álbum é muito confuso”
“Cheio de propaganda”
A mãe ordena as figurinhas em ordem alfabética. O pai ensina o filho a ver as bandeiras. Leem as siglas em inglês, checam os números. Olha aí, esse álbum de figurinhas, ensinando seu filho ortografia e ordem numérica.
“Na minha época, já vinha o catálogo embutido”, o pai se explica.
Dos três, a mãe é quem tem unha, haja paciência para descolar apenas o cantinho do adesivo e deixar pronto a puxada triunfal da colação.
“Vai, filho, cola aqui, Catar 15”, a mãe incentiva.
“Confere o nome”, o pai alerta.
O filho pega a figurinha de qualquer jeito e sai grudando.
“Não vai colar torto!”, o pai quer ensinar pro filho precisão e ajuste.
“Se ficar um pouquinho torto não faz mal, né, filho?”, a mãe quer ensinar a aceitação do imperfeito e a ressignificação dos erros.
Se olham atravessados. O filho se esmera em colar um pouco melhor.
“Olha pai, uma figurinha rara!”, ele grita, balançando o brasão prateado do Uzbequistão.
Agora o álbum ensina sobre valorização e humildade.
