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O modelo descontraído das transmissões dos jogos da Copa do Mundo, na CazéTV, pode dar a impressão de que aquele é um canal independente. Isso pode até ter sido verdade no começo do negócio, mas hoje o improviso é calculado e estratégico. Por trás da empresa que detém os direitos de transmissão de todas as partidas do mundial, e as exibe no YouTube para milhões de pessoas, há grandes aportes de grupos empresariais e financeiros.
A Agência Pública seguiu o rastro do dinheiro para tentar descobrir quem lucra enquanto tanta gente se endivida – além dos donos das casas de apostas online. Em uma intrincada teia empresarial, encontramos um grupo que se valoriza quanto mais crescem a CazéTV e seus patrocínios (dentre eles os de bets): o grupo XP.
Por trás dessa engrenagem, que movimenta bilhões para a Copa do Mundo, está uma empresa menos conhecida pelo público: a Livemode Serviços Digitais, que é a responsável pelas operações comerciais da CazéTV. A empresa foi fundada em 2017 pelos empresários Edgar do Valle Chagas Diniz e Sérgio de Rezende Lopes Junior, que também foram os executivos responsáveis pela idealização do canal Esporte Interativo.
À frente do Esporte Interativo, fundado em 2007, os empresários Edgar Diniz e Sergio Lopes apostaram em um modelo de transmissão diferente do que era veiculado nos grandes grupos. Enquanto a TV Globo, por exemplo, transmitia as principais competições do país, em sua maioria de clubes do sudeste, o canal dos empresários buscou pela transmissão de partidas menos exploradas, como as de futebol de base, campeonatos regionais e internacionais, por meio de TV por assinatura.
A receita vinha, principalmente, da venda de publicidade, de contratos de distribuição de TV por assinatura e da exploração comercial dos direitos de transmissão da competição adquirida. Diniz e Lopes deixaram o Esporte Interativo no fim de 2015, mas levaram consigo a experiência de negociações esportivas e o domínio do mercado da comunicação para fundar a Livemode dois anos depois.
Em 2024, a XP, uma das maiores gestoras de investimentos do Brasil, junto com a General Atlantic, empresa global de investimentos, investiu na LiveMode, dona da CazéTV. Reportagem estimou que o aporte teria sido de R$ 450 milhões. A partir daí, dois braços do mesmo grupo passaram a ocupar posições simultâneas no mercado de direitos de transmissão do futebol brasileiro.

O primeiro braço, a XP Allocation, administra o Sports Media Futebol Brasileiro, um fundo de investimento que recebe parte das receitas de transmissão dos clubes da Futebol Forte União, a FFU – que reúne times como o Corinthians e o Vasco da Gama. Para entrar nesse acordo, os clubes cederam uma fatia das suas receitas futuras de transmissão por 50 anos em troca de um adiantamento de cerca de R$ 1,2 bilhão. Quem administra esse dinheiro, em nome dos cotistas do fundo, é a XP.
O segundo braço, o XP Private Equity II, investiu na LiveMode. Além de ser dona da CazéTV, a LiveMode também é a agência comercial contratada pelos clubes da FFU para negociar seus direitos de transmissão – os mesmos direitos que rendem receita ao fundo administrado pela XP Allocation.
Na prática, a LiveMode senta dos dois lados da mesa: representa os clubes na hora de vender os direitos de transmissão e, pela CazéTV, é também compradora deles. O grupo XP, por sua vez, lucra em dois lados: pelo fundo, quando as receitas dos clubes crescem, e pelo private equity, quando a LiveMode e a CazéTV se valorizam.

CazéTV: exclusividade nas transmissões da Copa turbinou anúncios
Na Copa do Mundo, a Fifa contratou a LiveMode como agência exclusiva para negociar os direitos de transmissão do torneio no Brasil. A empresa vendeu parte dos jogos para o SBT e a N Sports e ficou com todos os 104 para a CazéTV, em uma parceria com o YouTube.
Com a grande cobertura de jogos pela CazéTV, a plataforma se tornou um dos espaços publicitários mais disputados do país. Parte desse espaço provém de casas de apostas, cujas ofertas e “chances imperdíveis” vêm sendo divulgadas exaustivamente durante as transmissões.
O caminho do dinheiro fica assim: uma pessoa assiste a um jogo e pode decidir apostar numa bet anunciada na transmissão. Se ela perde, o que acontece com frequência, o dinheiro enche o caixa da bet, que, por sua vez, está patrocinando a CazéTV. Já o canal, quanto mais arrecada, mais se fortalece para se posicionar na compra de direitos de transmissão. São esses direitos que, no caso do Brasileirão e da Copa, foram negociados pela LiveMode, dona do canal. Parte do valor pago pelos direitos alimenta o Sports Media FIP, fundo administrado pela XP Allocation. E quanto mais a CazéTV cresce, mais valiosa fica a LiveMode – o que valoriza o investimento feito pelo XP Private Equity II, outro braço do mesmo grupo.
O grupo XP, que indiretamente obtém retorno com a valorização do canal, publicou, em janeiro de 2024, um relatório apontando que os gastos com apostas online podem comprometer até 20% do orçamento das famílias de baixa renda no Brasil – parte da audiência dos jogos pela CazéTV que é impactada pelos anúncios de bets. Em setembro do mesmo ano, outro relatório da XP apontou que a regulamentação das casas de apostas poderia “intensificar ainda mais o impacto negativo das bets no poder de compra dos brasileiros”.
Falando de modo abstrato, e não sobre o caso concreto da LiveMode, a vice-presidente da Comissão de Direito Desportivo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de São Paulo, Daniele Maiolin, afirma que não existe uma lei específica que proíba uma empresa de ocupar esses vários papéis no mesmo negócio, ao mesmo tempo.



