O tempo sempre me pareceu menos uma medida exata do que uma presença espessa. Como alguém que caminha ao nosso lado sem fazer alarde, mas que, num súbito arbítrio, decide apressar o passo ou deter-se de vez. Aprendi a tatear essa estranha relação ao observar duas histórias que desaguaram e se misturaram em mim.
No dia 24 de novembro, o médico chamou a mim e à minha mãe para conversar. O ar estava denso, não havia como desviar do que já se anunciava. Ele nos disse que “talvez vocês devessem se despedir do Sr. Carlos [meu pai], pois ele não deve resistir por muito mais tempo”. Aquela frase cavou um espaço oco e vagaroso no meu peito, como se o próprio tempo tivesse se esticado dolorosamente só para que eu pudesse sorver o peso dela.
E então, num mistério insondável, passaram exatamente trinta dias. Um mês inteiro em que o tempo resolveu, por algum motivo obscuro, ser generoso. Trinta dias de despedidas que nunca se fechavam por completo, de conversas que entrelaçavam esperança e aceitação, e de silêncios que diziam tudo. Eu sabia que estava perdendo meu pai, mas também sabia, com uma lucidez cortante, que ainda havia tempo. E recebi isso também como um gesto de gentileza.
Cresci aprendendo a ler o tempo também como um sinal. Sendo católica de berço, tenho o vício de decifrar as datas como uma espécie de “linguagem de Deus”. Meu pai nasceu no dia 22 de maio, dia de Santa Rita, a santa das causas impossíveis. Depois de 81 dias internado, por ter contraído uma síndrome rara enquanto tratava um câncer, ele recebeu alta no dia 19 de março, dia de São José, padroeiro das famílias e da boa morte, um cuidado simbólico.
E então ele morreu no dia 24 de dezembro, às vésperas do nascimento de Cristo. Às 15h da tarde, na hora da misericórdia, que dizem ter sido também a hora da morte de Cristo. Mais uma coincidência que nunca foi só coincidência para mim. Era como se o tempo, além de passar, também se ocupasse de tecer pequenos sentidos ao longo do caminho.
Mesmo assim, nada disso impede o que ele faz de mais inevitável: seguir.
Foi já nesse outro tempo, o do luto, que ouvi a Ana Paula Renault falar do pai no Big Brother Brasil, logo no início do reality show. Havia ali uma intimidade que eu reconhecia nas minhas próprias entranhas. Um jeito de falar que não era só de filha, mas também de melhor amiga. E então veio um acontecimento e um detalhe que ficaram cravados em mim como uma pergunta suspensa: dois dias.
