Flávio Bolsonaro está diferente. Pelo menos foi isso o que o candidato à Presidência da República pelo Partido Liberal (PL) demonstrou na oficialização de sua candidatura neste sábado, 25 de julho, no Pacaembu, em São Paulo. Em pelo menos três ocasiões, o político foi levado às lágrimas: enquanto assistia a um vídeo do irmão, Carlos Bolsonaro; ao falar do pai, Jair Bolsonaro; e quando o telão reproduziu um vídeo feito com inteligência artificial com a imagem do ex-presidente dizendo que o filho é “a pessoa que escolhi para me substituir, sangue do meu sangue”. O mestre de cerimônias chegou a pedir uma pausa para Flávio “descansar um pouco os olhos”.
“Eu posso ser mais calmo, sorridente, tranquilo e moderado, mas aqui tem sangue de Bolsonaro”, disse o “filho mais velho do capitão”, como Flávio se refere a si mesmo. A frase reflete o que ele quer reforçar nesta campanha, em que tem a missão de representar o pai, preso e inelegível, ao mesmo tempo em que quer passar a imagem de ser um homem mais contido e sensível.
Um dos motivos para as lágrimas pode ser a falta de apoio a Flávio entre as mulheres. Pesquisa Datafolha divulgada na véspera projeta que, no segundo turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem 47% dos votos, contra 43% do senador pelo PL para o público em geral. Mas a diferença aumenta quando se considera só o eleitorado feminino: a proporção passa para 52% a 37%. Em outras eleições, analistas apontaram que a falta de tato — e o machismo — de Jair Bolsonaro foi um dos fatores que pesaram para ele ter dificuldade em obter adesão desse público.

Também entra na conta a briga familiar que ganhou os holofotes após Michelle Bolsonaro, madrasta de Flávio, divulgar um vídeo dizendo que ele a havia destratado durante a composição de chapas do PL pelos estados. A ex-primeira-dama ganhou protagonismo político após criar e liderar o PL Mulher, ala de mulheres conservadoras do partido, e aliados atuaram nos bastidores para costurar uma reconciliação entre eles, entendendo que o apoio de Michelle é fundamental.
Um dia antes da convenção, Michelle gravou um vídeo dizendo que perdoa Flávio e que “seguirão juntos na missão”. Ela ainda fez outra gravação para ser transmitida durante o evento, reforçando a mensagem – porém citou o nome do enteado apenas uma vez, quando pediu para Deus abençoar a sua candidatura. No centro de convenções havia figuras de papelão em tamanho real retratando a ex-primeira-dama ao lado de Jair e Flávio.
Flávio também tem tido dificuldade de obter apoio do público evangélico tanto quanto o pai em anos anteriores. Um dos motivos para isso, como a Agência Pública já mostrou, é que ele “não parece muito evangélico”, e a moderação no discurso e menções mais frequentes à religião e à Deus ajudam a falar com este público.
Uma das estratégias da campanha de Flávio é dar protagonismo à Fernanda, sua esposa, que costuma ser discreta. Ela foi responsável por introduzir o discurso do marido e falou por quatro minutos. “Eu não sou política, por isso estou aqui com a minha colinha. Estou aqui para prestar apoio ao meu marido”, disse, lendo o bloco de notas do celular. Fernanda disse que, como cirurgiã-dentista, “sabe o que é tentar empreender neste país” e que como mãe, “não quer mais ver notícia de mulheres sendo violentadas e assassinadas todo dia.” Também disse que tem orgulho do “homem de Deus” que o marido se tornou – o casal é evangélico.
Flávio, no início de sua fala, se cercou de mulheres: Fernanda (a quem chamou de “mais do que meu pilar, minha espinha dorsal”), a mãe, Rogéria (“que me gerou, me educou e me preparou para a vida”) e a ex-presidente da Caixa Econômica Federal, Daniella Marques, ex-braço direito do ministro Paulo Guedes e cotada para vice. Coube a ela uma fala incisiva direcionada às mulheres. “Quero falar com as mães do Brasil: nós, mães e mulheres, não queremos discurso vitimista, a gente quer bandido na cadeia”, disse.

Flávio Bolsonaro acena para mulheres, mas já criticou Lei Maria da Penha
Um dos principais discursos da campanha do candidato do PL, a segurança pública também ganhou direcionamento às mulheres. Flávio Bolsonaro defendeu penas mais longas para “quem enfia o cacete em mulher” e a castração química para autores de crimes sexuais.

