A estrada era um retão em uma vasta planície. Até onde a vista podia chegar, só se via uma enorme plantação. Monocultura. Quilômetros e quilômetros de uma só espécie. De dentro do ônibus eu enxergava apenas um tom de verde… E caminhões, muitas carretas levando carga pesada para grandes silos.
A paisagem lembrava o Brasil. Paulistas e os alagoanos podem pensar que eu via um de seus infinitos canaviais. Mato-grossenses e os goianos podem achar que eu contemplava suas intermináveis fazendas de soja. A turma do Matopiba – divisa entre Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia – talvez possa imaginar uma boa safra de milho.
Mas o que eu olhava eram mastodônticas plantações de dendê. Sim, aquela mesma palma da qual se faz o óleo de dendê, que conhecemos na moqueca baiana ou no acarajé. Estavam ali para produzir o valioso oil-palm, em inglês.
Original do oeste da África, hoje as palmeiras de dendê são plantadas em grande escala no Sudeste Asiático e também massivamente nas florestas da bacia do Congo. E chegam também à Amazônia.
O óleo de palma é uma das principais commodities agrícolas negociadas globalmente. Quando se trata de óleo, o dendezeiro é campeão. É o principal azeite utilizado pelas indústrias de alimentos e cosméticos. Seu maior produtor e exportador é a Indonésia, arquipélago na linha do Equador formado por 17 mil ilhas entre o Pacífico e o Índico. Os maiores consumidores deste óleo são a China, a Índia e os Estados Unidos.
Quando recebi o convite da Agência Pública para escrever esta coluna, eu estava viajando pela Ilha de Sumatra, no norte da Indonésia. É um território fascinante, com florestas tropicais e rios de dimensões amazônicas. Mas ali existem tigres e elefantes.
Muito honrado, avisei que ia tentar escrever a primeira coluna ainda durante a viagem.
Fui a Sumatra para visitar o Parque Nacional Gunung Leuser, uma área protegida de cerca 800 mil hectares onde está uma das maiores populações remanescentes de orangotangos. Foi emocionante vê-los na natureza. Mas logo saquei que, apesar da fauna exuberante ser diferente de nossas impressionantes panteras e jaguatiricas, surucucus e harpias, Brasil e Indonésia têm muito em comum.
São países tropicais com grande população, grande território e grande influência na economia regional por sua liderança na exportação de commodities agrícolas e minerais. Suas gigantescas florestas estão constantemente ameaçadas. Mas enquanto aqui a soja e os pastos lideram, as palmeiras de dendê da Indonésia são as grandes impulsionadoras do desmatamento.
Aliás, há anos o Brasil lidera o ranking de países com maior desmatamento de florestas tropicais em todo o mundo, seguido pela Indonésia.
Assim, comecei a pensar se o melhor nome para esta coluna não seria mesmo manter “Antes que Seja Tarde”, como fazia a amiga Giovana Girardi – nome que tenho grande honra e responsabilidade de suceder neste espaço. Pois para alguns, como o orangotango e o rinoceronte-de-sumatra, talvez já seja mesmo tarde.
Mas pensei em uma proposta para fazer a você, leitor. Aqui na Ligando os Pontos quero fazer análises sobre a infindável corrida pelos recursos naturais e como ela afeta a nossa vida cotidiana, seja no preço da comida ou da energia. E, também, um olhar sobre os impactos na vida das comunidades ligadas a estes recursos. E nas vidas de muitas espécies de plantas e bichos.
