No dia 3 de junho, usuários brasileiros do Airbnb receberam um e-mail incomum, em tom de denúncia. “Não à proibição do aluguel por temporada!”, dizia o assunto. Assinado pelo “Time Airbnb”, o texto dizia que uma decisão recente do Superior Tribunal de Justiça (STJ) “fere a Constituição” e convocava os destinatários a assinar um abaixo-assinado. “Esse tipo de decisão pode prejudicar não só a comunidade de anfitriões, seus familiares e centenas de milhares de profissionais, como os de limpeza e donos de pequenos negócios, mas também os próprios hóspedes, que terão menos opções de hospedagem”, dizia. Embora o Airbnb não divulgue quantos são seus usuários no Brasil, o alcance do e-mail foi massivo, uma vez que a plataforma afirma ter mais de 1 milhão de acomodações no Brasil.
A petição, segundo o e-mail, havia sido criada pela “comunidade de anfitriões”. O que o Airbnb não mencionava: a autora do abaixo-assinado atua conjuntamente com a empresa há mais de dez anos e faz parte de uma estratégia global para “criar um movimento de base”.
Para sustentar o argumento econômico, o e-mail apresentava uma série de dados: 55% dos anfitriões são mulheres, 20% têm mais de 60 anos, o setor teria movimentado mais de R$ 113 bilhões na economia brasileira em 2025 e apoia mais de 700 mil postos de trabalho. Números expressivos, todos fornecidos pelo próprio Airbnb ou por estudo encomendado pela empresa à Fundação Getulio Vargas. A empresa é, portanto, a única fonte dos dados.
O email repete o padrão de outras Big Techs no Brasil de tentar criar uma mobilização social para defender seus interesses. É uma tática de lobby chamada “astroturfing”, que também foi adotada pelas Big Techs para conter regulação no Congresso Nacional, como mostrou a Agência Pública no especial “A Mão Invisível das Big Techs”. Para Rafael Zanatta, diretor da organização Data Privacy Brasil, especializada em direitos digitais, essa tática também pode ser descrita como “grama sintética”, uma vez que finge haver um movimento cívico real.
Em 9 de maio, o STJ decidiu que imóveis em condomínios residenciais só podem ser usados para aluguel de curta temporada se pelo menos dois terços dos condôminos aprovarem em assembleia. A decisão, relatada pela ministra Nancy Andrighi, tem efeito vinculante: vale para todos os tribunais do país. O Airbnb participou do processo como parte interessada, se opondo à necessidade de aprovação do condomínio. O email veio depois da derrota no debate judicial.
No começo deste ano, Brian Chesky, cofundador e CEO da empresa, afirmou em entrevista à Veja que o Brasil é um “laboratório de ideias” do Airbnb, uma vez que novos produtos são testados no país antes de serem replicados globalmente. Mas a mobilização contra o STJ sugere que o Brasil também pode ser um “laboratório” para fazer pressão contra decisões judiciais.
Questionado pela Pública sobre o caso, o Airbnb afirmou que “o abaixo-assinado é uma iniciativa do clube de anfitriões para defender o direito de alugar seus imóveis por curta temporada” e que a empresa “reitera seu apoio aos anfitriões, que exercem essa atividade de forma legítima”. Leia a íntegra da resposta no final da reportagem.
Autora da petição também é “embaixadora” do Airbnb
O abaixo-assinado impulsionado pelo Airbnb foi publicado no dia 27 de maio na plataforma de petições Change.org por Raquel Nicastro, integrante da “comunidade de anfitriões e inquilinos de aluguel por temporada”.
Em entrevista à Pública, Raquel conta que, desde 2016, ocupa a posição de “Community Leader” do Airbnb em São Paulo. “A gente tem líderes no Brasil todo e é muito legal porque a gente faz muitas trocas. A ideia do clube é pra gente apoiar uns aos outros como pessoas que fazem aluguel por temporada nessa atividade que a gente não tem alguém que lute pela gente, né?”
Em seu LinkedIn, ela registra publicamente sua participação frequente em atividades junto a lideranças do Airbnb empresa, e agradece constantemente a elas. Em publicação sobre o lançamento do programa Coanfitriões, por exemplo, ela se apresenta simultaneamente como Anfitriã, Coanfitriã, Líder de Comunidade e Embaixadora da marca, quatro formas de vínculo que a própria empresa reconhece ao convidá-la para representar essa trajetória em coletiva de imprensa oficial, ao lado da “Country Manager” do Airbnb no Brasil. Em outra publicação, Raquel oferece comercialmente consultoria especializada em Airbnb para condomínios e síndicos, o mesmo público diretamente afetado pela decisão do STJ. O programa Community Leaders é descrito pelo Airbnb como uma rede de voluntários que “apoiam, conectam e empoderam” anfitriões locais.

Soa como iniciativa cívica espontânea. Mas uma reportagem da Time, publicada em 2016, baseada em informações e materiais da própria empresa, revelou a arquitetura por trás dessa rede. Desde então, documentos institucionais divulgados pelo Airbnb, como o seu “Kit de ferramentas para regulamentação de aluguéis de curta duração para formuladores de políticas públicas” e orientações públicas aos clubes de anfitriões ajudam a entender como a empresa os organiza para influenciar debates regulatórios e mobilizar apoio político.
Naquele ano de 2016, Chris Lehane, veterano de campanhas do partido Democrata dos EUA, foi contratado pelo Airbnb para chefiar sua equipe de políticas públicas – a equipe que, numa Big Tech, faz a tarefa de interface com governos e operações de lobby.
Lehane descreveu à revista Time a estratégia que estava implementando globalmente: criar clubes de anfitriões em cem cidades ao redor do mundo, modelados na experiência de São Francisco, para construir o que ele chamou de um “verdadeiro movimento político de base”. Ali, a empresa havia contratado quase cem profissionais de mobilização e duas dezenas de especialistas em engajamento digital. “Decidimos replicar o que tínhamos em São Francisco: colocar em campo, de forma global, um esforço de mobilização. É algo que nunca vi uma empresa fazer”, disse Lehane. A reportagem da Time foi publicada no mesmo ano em que Raquel Nicastro passou a ser da comunidade de anfitriões, segundo disse à Pública.
Na entrevista, Raquel afirmou que seu papel na comunidade de anfitriões é voluntária. “Todas essas pessoas que trabalham no Airbnb como voluntários, na liderança, têm um papel maior de olhar e escutar a sua região, a sua localidade, as necessidades da localidade”, explicou. “O Airbnb tem um espaço de escuta muito legal, ele muda a plataforma com feedback que a gente, como anfitrião que utiliza, passa pra eles, então isso é muito bacana. E é uma empresa que, de fato, eu admiro, que ela forma pelo propósito, pelo que a gente tem visto de transformação de vidas”.
Raquel explica, entretanto, que outro dos seus vínculos, como “embaixadora” do Airbnb, é remunerado, mas não quis explicar o que faz nesta função. “Eu sou remunerada, mas eu não sou funcionária deles. É um trabalho que a gente faz como prestação de serviço”.
Ela reforçou que não tem vínculo com o Airbnb. “Eu sou uma profissional autônoma”, disse.
Foi ela e outros líderes anfitriões que deram origem à petição, diz ela. “Eu me juntei com quatro advogados que são líderes, e do Belém, que é advogada, do Rio de Janeiro, mais outros dois que a gente se juntou”, segundo ela, depois da decisão do STJ, “os síndicos começaram a proibir o aluguel por temporada nos condomínios, a fazer isso de uma forma ilegal”. Foi então que ela procurou o Airbnb para, segundo ela, “dar voz à petição”, que hoje chega a mais de 124 mil assinaturas. “Foi muito legal o apoio que a Airbnb nos deu”.


Segundo a reportagem da Time, a ausência de contrato de trabalho é um elemento constitutivo do modelo Chris Lehane, que afirmou precisar da captação de “pessoas reais” para mobilizar a comunidade. A informalidade do vínculo cria distância formal entre empresa e liderança, sem eliminar a coordenação funcional entre ambas.


