Pouco depois das 18h de 13 de fevereiro de 2026, uma canetada em Brasília alterou o rumo de uma das mais longas disputas socioambientais da Amazônia. Há mais de uma década, o Projeto Volta Grande, uma iniciativa da canadense Belo Sun para instalar a maior mina de ouro a céu aberto do Brasil às margens do rio Xingu, enfrentava barreiras judiciais devido aos impactos sobre as populações indígenas e tradicionais da região. Naquela noite, porém, o desembargador federal Flávio Jardim decidiu, monocraticamente, que o empreendimento deveria avançar, restabelecendo a licença de instalação da empresa.
A medida foi na contramão do histórico recente do próprio processo. Apenas um mês antes, em 12 de janeiro, a Justiça Federal de Altamira havia concluído que a mineradora ainda não havia cumprido as exigências do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), o mesmo em que atua Jardim, para validar a autorização. Segundo aquele entendimento, faltavam a elaboração adequada do Estudo do Componente Indígena (ECI) e a realização de uma consulta livre, prévia e informada com os grupos afetados.
Para a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), as análises apresentadas pela empresa Belo Sun estavam repletas de lacunas. Entre os problemas apontados pelo órgão estavam a exclusão de indígenas autodeclarados das avaliações de impacto, a falta de dados essenciais sobre a aldeia São Francisco – comunidade Juruna que terá que ser realocada caso o empreendimento se concretize –, indefinições quanto às terras tradicionais e a ausência de medidas de compensação específicas. O Ministério Público Federal (MPF) seguia a mesma linha, argumentando que o direito à consulta prévia, garantido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), continuava sendo desrespeitado.
Apesar dessas advertências, o magistrado chegou a uma conclusão diferente. Com um único despacho, reverteu a posição da primeira instância e devolveu à Belo Sun o aval para prosseguir com o projeto bilionário. Para as lideranças locais e organizações da sociedade civil ouvidas pela Agência Pública, o ato representou um duro revés.
Na visão do julgador, contudo, as condicionantes exigidas pela Justiça haviam sido cumpridas. Na decisão, Jardim argumenta que a própria Funai reconhecera, anteriormente, a validade do estudo de impacto e do processo de escuta realizado. Segundo a decisão, a mudança de postura adotada posteriormente pela autarquia indigenista não poderia ser incorporada automaticamente à análise judicial sem a apresentação de novos elementos que justificassem a revisão. Cabe à Justiça, segundo essa interpretação do magistrado, avaliar se as alterações estão devidamente fundamentadas, evitando contradições ao longo do trâmite processual.
A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) contrapõe essa lógica, defendendo que as revisões de posicionamento técnico fazem parte do funcionamento normal da administração pública. Ricardo Terena, coordenador jurídico da entidade, afirma que os órgãos do Estado têm o dever de rever entendimentos quando identificam falhas em análises anteriores. “Não é possível manter um posicionamento problemático apenas em nome da estabilidade administrativa”, ressalta.
A repercussão do episódio, no entanto, ultrapassou os limites de Volta Grande. Aquela não era a primeira vez que o nome do juiz aparecia em litígios sobre extração mineral, licenciamento ambiental e grandes obras na Amazônia. Desde que Jardim assumiu uma cadeira no TRF-1, em março de 2024, o magistrado passou a ocupar uma posição estratégica em processos capazes de influenciar o destino de negócios vultosos e de territórios tradicionais.

De Goiânia ao maior tribunal federal do país
Nascido na capital goiana, em 1978, Flávio Jardim construiu sua trajetória entre a academia, o serviço público e a advocacia privada antes de ingressar na magistratura. Doutor em Direito pela Fordham University, em Nova York, atuou como assessor do ministro Gilmar Mendes no Supremo Tribunal Federal (STF) entre 2006 e 2009. Em seguida, ingressou na Procuradoria-Geral do Distrito Federal, onde permaneceu por 15 anos, alcançando o cargo de procurador-geral adjunto da Fazenda Distrital.
Sua carreira também inclui passagem pelo escritório Bermudes Advogados, uma das bancas mais influentes do país. A firma atuou em litígios de grande repercussão envolvendo a Vale após os rompimentos das barragens de Mariana e Brumadinho, além de representar a mineradora em disputas relativas aos projetos Onça Puma e Sossego, no Pará. A Norte Energia, concessionária da hidrelétrica de Belo Monte, também figurou entre os clientes do escritório.
A chegada ao TRF-1 ocorreu durante a ampliação da Corte aprovada pelo Congresso Nacional. Em março de 2024, o então advogado foi nomeado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para uma das vagas destinadas ao quinto constitucional, mecanismo que reserva parte das cadeiras dos tribunais a representantes da advocacia e do Ministério Público.
Trajetória de Flávio Jardim
2006–2009
Assessor no Supremo Tribunal Federal (gabinete do ministro Gilmar Mendes).
2009
Ingressa na Procuradoria-Geral do Distrito Federal como procurador do Distrito Federal.
A partir de 2011
Torna-se sócio do escritório Sergio Bermudes Advogados, mantendo, ao mesmo tempo, o cargo de procurador do DF, em regime compatível com a advocacia privada para procuradores distritais.
2024
É nomeado desembargador do Tribunal Regional Federal da 1ª Região pelo quinto constitucional.
A nomeação de Jardim, contudo, foi cercada por articulações nos bastidores do Judiciário, segundo apurou a Pública. Uma fonte que atua há décadas no meio jurídico de Brasília e aceitou falar sob condição de anonimato afirma que a candidatura de Jardim teria sido articulada por Guiomar Feitosa, ex-companheira do ministro Gilmar Mendes e sócia da Bermudes Advogados. Segundo esse interlocutor, Gilmar Mendes teria atuado como o principal fiador político da indicação durante a disputa pela vaga do quinto constitucional.
A posse o levou a uma das posições mais sensíveis do Judiciário brasileiro. Sensível por que o tribunal concentra demandas de nove estados da Amazônia Legal, além do Distrito Federal, sendo o foro onde tramita litígios sobre mineração, hidrelétricas, rodovias e terras indígenas. Em muitos desses casos, uma única assinatura pode destravar obras bilionárias ou redefinir políticas públicas com impacto nacional.
Procurada pela reportagem, a assessoria do desembargador afirma que sua atuação profissional anterior não interfere no exercício de sua função atual. Por cautela, diz a nota, ele tem se declarado suspeito por motivo de foro íntimo em ações nas quais advogados do escritório Sergio Bermudes atuam nos autos.
O rastro de grandes obras
Os primeiros meses de Flávio Jardim no tribunal transcorreram sem grande exposição pública. Ao longo de 2024 e 2025, contudo, a assinatura do magistrado passou a constar em despachos de elevado impacto socioambiental.
Na BR-319, rodovia que liga Manaus a Porto Velho e cujo asfaltamento é alvo de controvérsia por riscos à floresta, ele participou da decisão que permitiu o avanço do licenciamento. No Amazonas, Jardim teve papel central no processo da Potássio do Brasil, ao reconhecer a validade da consulta ao povo Mura e permitir a continuidade do licenciamento de um empreendimento questionado por comunidades indígenas e pelo MPF.


