No começo deste ano, durante o encontro anual de Davos, nos Alpes Suíços, o discurso do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, teve grande repercussão. Poucas semanas depois da invasão da Venezuela pelos Estados Unidos, o liberal canadense resumiu com palavras fortes o que estava na cabeça de todos: a chamada ordem mundial estava rompida.
Ele se referia principalmente ao fato de que Donald Trump tomara a decisão de bombardear Caracas e sequestrar o presidente Nicolás Maduro sem consultar o Congresso ou seus principais aliados na OTAN e na Europa. As regras de cooperação internacional estão desaparecendo, disse Carney, e “os fortes fazem o que querem, enquanto os fracos precisam aguentar o que devem.”
Naquele discurso, pouca gente notou, mas me chamou a atenção sua menção sobre as vulnerabilidades econômicas das cadeias de abastecimento.
“Mais recentemente, as grandes potências passaram a utilizar a integração econômica como arma, as tarifas como meio de pressão, a infraestrutura financeira como forma de coação e as cadeias de abastecimento como pontos fracos a serem explorados”, disse. Vale ver o discurso inteiro, de 17 minutos, aqui.
Seu discurso, agora, soa profético se pensarmos no que está acontecendo no D.
O fechamento de uma das principais rotas de petróleo do mundo, graças à guerra iniciada por Estados Unidos e Israel, jogou a economia global em uma turbulência inesperada.
Em todo lado, o preço da gasolina e do diesel segue aumentando. O combustível mais caro afeta diretamente a inflação dos alimentos – tema que já se mostra central nas eleições deste ano no Brasil.
Estamos falando dos impactos diretos dos conflitos armados. Mas as guerras que estamos vivendo vão muito além dos mísseis e dos drones.
As escaladas tarifárias que Trump iniciou contra a China, o Brasil e, vejam só, até mesmo contra o Canadá, que recebeu nada menos que 50% sobre suas importações nesta semana, também terão impacto sobre as pessoas e o meio ambiente.
No caso do Brasil, as tarifas de importação americanas para diversos produtos foram elevadas a 25%. A Confederação Nacional da Agricultura calculou que o setor agropecuário vai perder 36%, ou cerca de 4,5 bilhões de dólares, em exportações. Um dos argumentos utilizados para impor as tarifas sobre o Brasil é que as cadeias de produção daqui estão contaminadas por crimes ambientais, além dos apontamentos sobre trabalho análogo à escravidão.
O documento da investigação que orientou a sobretaxa afirma que o Brasil obtém vantagens injustas ao não aplicar a lei. Na avaliação do Escritório para o Comércio dos EUA (USTR), a produção em terras invadidas e desmatadas é uma forma de competição desleal.
Parece um contrassenso imaginar que a sanção ao Brasil parta dos Estados Unidos, país com as maiores emissões de gases de efeito estufa em todo mundo e que se retirou do Acordo de Paris contra a emergência climática.
