Ao contrário do que se pode concluir, menos operações policiais em comunidades não significam, necessariamente, uma redução no número de mortes ocasionadas nessas ações. Isso porque a letalidade das incursões policiais vai além do número de operações realizadas. É o que está demonstrado no estudo da Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial (IDMJRacial) que levantou as causas e consequências das operações policiais realizadas na região da Baixada Fluminense entre 2020 e 2025.
Nos últimos três anos do período analisado, as incursões das forças de segurança Militar e Civil na região diminuíram, indo de 1.233 em 2023 para 655 em 2025; o número de mortes, no entanto, saltou de 22 para 46, respectivamente, resultando em uma taxa de letalidade de 7% no último ano.
De acordo com a série histórica, o maior número de mortes ocasionadas por policiais proporcionalmente às ações, teve seu pico em 2020 (15,8%) e 2021 (11,8%). A letalidade começou a cair em 2022 (4,50%), chegando ao menor número em 2023 (1,70%). Mas, nos dois anos seguintes, volta a crescer: 2,80% em 2024 e 7% em 2026. No total, foram realizadas 5.298 operações policiais (Civil e Militar) em comunidades da Baixada, que deixaram 282 mortos, 652 feridos, 5.783 pessoas presas e 41 adolescentes apreendidos.
O alto número de operações com produção de mortes acontece à revelia da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 635, popularmente conhecida como ADPF das Favelas. A ação tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) desde 2019 e estabelece diretrizes para a intervenção policial nas comunidades, entre elas o uso proporcional da força conforme o contexto e a preservação dos direitos humanos.

No entanto, ações policiais que muitas vezes resultam em pequenas apreensões feitas com o uso desproporcional da força seguem ceifando vidas como a de Lucas de Souza Oliveira. Ele foi morto aos 21 anos, no dia 13 de maio de 2022, durante o patrulhamento de uma corporação militar na comunidade de Tarumã-Queimados, na Baixada Fluminense. A intervenção pelos policiais militares terminou com a apreensão de R$ 20 reais com o jovem.
A mãe de Lucas, Leila Carla de Souza Oliveira, contou à Agência Pública que identificou já no reconhecimento do corpo, feito no Instituto Médico Legal (IML), que o filho tinha sido executado. Na época, ela havia acabado de passar no concurso da Polícia Civil e seria investigadora. Segundo o laudo da necrópsia, Lucas foi morto com um tiro no queixo, em pé, com a arma encostada direto na pele.
Os policiais militares que participaram da intervenção registraram boletim de ocorrência, assumindo a autoria do disparo, com o argumento de que teriam sido recebidos a tiros quando entraram na comunidade. Munida do laudo que atesta que o filho foi executado, Carla segue confrontando a versão apresentada pela polícia. Ela acionou o Ministério Público do Rio de Janeiro e o caso está sob investigação.
“[Os policiais] disseram, no boletim de ocorrência, que eles foram recebidos a tiros na comunidade e que o Lucas foi morto nessa troca de tiros. Mas, o perito que examinou o corpo do Lucas escreveu: ‘executado’. Não sou eu que estou dizendo, foi um laudo que diz que o meu filho foi executado”, conta Leila Carla.
O tiro que Lucas recebeu, vindo do queixo para cima, é, para Carla, a explicação de que ele já estava rendido pelos policiais. “Ninguém se abaixa para colocar uma arma nessa posição. Se você estiver ajoelhada, vai botar ao contrário [a arma, em direção ao chão]. Meu filho estava de pé, de frente, provavelmente, [com] os braços presos. Ele estava rendido. Por que não prenderam o Lucas? Por que não levaram o Lucas para que ele fosse conduzido e respondesse pelo que ele estivesse fazendo?”, questiona a mãe.
Por que isso importa?
- A Baixada Fluminense reúne 13 municípios e cerca de 3,5 milhões de moradores, segundo o IBGE.
- Segundo dados do Censo de 2022, 69% da população da Baixada Fluminense se declara negra. O número coloca a região entre as maiores concentrações de pessoas pretas ou pardas do Rio de Janeiro e da região Centro-Sul do país.
O boletim de ocorrência é assinado por dois policiais que pertencem ao 15º Batalhão da PM da Baixada Fluminense. De acordo com o estudo do IDMJRacial, este foi o batalhão que mais matou nos últimos cinco anos, com 71 vítimas. Para Leila Carla, a morte de seu filho e a brutalidade da polícia nos últimos cinco anos, apenas neste batalhão, demonstram a negligência do Estado do Rio de Janeiro na Baixada Fluminense.
“No estado do Rio de Janeiro, todo mundo sabe que a Baixada Fluminense está abandonada; lá acontece o que quiser. Ou seja, a polícia lá está reinando; é como um policial falou para mim [quando Carla foi denunciar a morte de Lucas no Ministério Público] lá mora um bicho-papão e ninguém vai mexer com eles”, conta.
Metade das mortes causadas pela Polícia Civil na Baixada em cinco anos ocorreram em 2025
Nos últimos três anos, a taxa de letalidade das operações da Polícia Civil na Baixada Fluminense aumentou em cerca de 400%, enquanto as incursões caíram de 117 em 2022, para 66 em 2025. Este, porém, foi o ano em que a corporação mais provocou mortes: do total de 24 assassinatos na série histórica, 12 ocorreram em 2025.
Para além do resultado quantitativo, a pesquisa chama atenção para uma mudança na prática da própria corporação, que foi criada para investigações criminais. O patrulhamento ostensivo em territórios cabe à Polícia Militar. A IDMJRacial, no entanto, identificou 739 operações executadas por policiais civis, alcançado o pico em 2024, com 336 incursões. A série histórica revela um salto de 614% no período, cerca de 7 vezes a mais do que em 2020. Em 2025, o número cai para 66, mas a letalidade, por sua vez, foi de 2% em 2024, para 18% no ano seguinte.
“A Polícia Civil está deixando de ser apenas investigativa e está seguindo para um caminho de violência territorial e de ocupação territorial”, analisa Kharine Gil, professora da Escola de Serviço Social da UFRJ e analista de dados da IDMJR. Segundo Gil, a mudança no órgão está relacionada à conjuntura política do Rio de Janeiro, que frequentemente tem um discurso de combate ao crime voltado para o âmbito da violência, com ações truculentas que levam a produção de morte.
Ela relembra, inclusive, as falas de aprovação do ex-governador da cidade, Cláudio Castro, sobre a chacina ocorrida nos Complexos da Penha e do Alemão, em outubro de 2025. Na ocasião, Castrou classificou a ação realizada em conjunto com a Polícia Civil e a Militar como um “sucesso” e um marco no combate ao crime organizado. As operações deixaram mais de 120 mortes.

“Existe um discurso político no estado do Rio de Janeiro em geral que aprova todas essas ações e aprova o aumento de operações policiais, aprova que a polícia atire antes de saber quem é. Com certeza, a maneira como a polícia civil no último ano diminuiu a quantidade de operações, mas aumentou a proporção de mortes provocadas, está relacionada à forma como o Poder Executivo [do Estado] literalmente permite e declara verbalmente que isso é possível de ser feito e é a melhor forma de resolver o problema do Rio de Janeiro”, explica Kharine.
