Um dos argumentos mais utilizados contra a redução da jornada de trabalho diz que trabalhar menos horas vai prejudicar a economia do país. Afinal, a lógica é simples. Se trabalho dá dinheiro, mais trabalho dá mais dinheiro, e mais dinheiro dá mais desenvolvimento. Numa analogia meritocrática, não é raro escutar que, nos países ricos, as pessoas têm maior dedicação e trabalham mais horas.
Mas, quando se trata de lógicas simples no debate macroeconômico, aqui vai um conselho: desconfie de qualquer lei ou postulado “universal”.
A economia não é uma ciência natural – e muito menos exata. Nós, economistas, não somos físicos, nem biólogos. E o comportamento econômico de pessoas ou países dificilmente pode ser descrito a partir de uma regra geral.
Em termos newtonianos, nem sempre a maçã cai da árvore para o chão, como vaticinou o físico Isaac Newton em 1666. A economia não funciona como as leis da física.
Em setembro de 2025, dois economistas do Banco Mundial e da Universidade de Berkeley, na Califórnia, lançaram um estudo que agrega dados atuais de jornada de trabalho de 160 países, combinada a uma série de mais de 20 anos dos mesmos dados para 86 países. Em junho, uma matéria sobre o estudo no site do Fundo Monetário Internacional voltou a chamar minha atenção.
Amory Gathin e Emmanuel Saez analisaram as jornadas de trabalho médias de populações em diferentes países e ao longo de diferentes períodos, utilizando recortes de gênero e idade. O estudo é o mais completo já realizado, e compila dados oficiais referentes a 97% da população mundial.
Sua principal descoberta é que o desenvolvimento econômico e a duração da jornada semanal de trabalho não se relacionam de forma linear. Ou seja: trabalhadores de países mais desenvolvidos – aqui entendidos como aqueles que possuem maior Produto Interno Bruto, ou PIB – não necessariamente trabalham mais horas por semana.
Para ser justa, o PIB até conta uma parte da história. A relação encontrada mostra que países nos extremos da renda apresentam semanas de trabalho mais curtas. É o caso da Etiópia, de um lado, e da França, do outro. A primeira, com um PIB anual per capita de 3.064 dólares, e a segunda, de 60.927 dólares em 2023. Ambas com jornadas médias de cerca de 31 horas semanais, apesar da diferença grande no volume de riqueza.
Já as maiores jornadas ficam com uma porção de países de renda média: Índia, China, Vietnã e Bangladesh se aproximam das 45 horas semanais. O Brasil, classificado como um país de renda média-alta, tem a jornada média de 40 horas.
Mas olhar apenas para a riqueza de um país é insuficiente. Não explica por que em alguns países ricos, como Singapura e Estados Unidos, se trabalha muito mais horas do que em outros, como Inglaterra e Alemanha: são 42 e 38 horas nos primeiros, respectivamente, e 33 e 30 horas, nos segundos. Também não explica por que a República Democrática do Congo possui um PIB per capita tão menor que o do Japão – 1.732 versus 52.726 dólares em 2023 –, quando a média de horas semanais trabalhadas por lá é maior – 37,6 versus 35,5.
