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“Nunca foi sorte, sempre foi Deus” é a frase que ilustra boleias de caminhões pelo Brasil afora. Poderia ser, também, o slogan do Grupo Mateus, a maior rede de supermercados do Nordeste e terceira do país, fundada por Ilson Mateus, que figura na última reportagem sobre Super-ricos que publicamos hoje.
Mas a reportagem, feita por Flávia Regina Melo, com colaboração de Alice Pires e Yan Ribeiro, mostra como a fortuna do “seu” Ilson pouco tem a ver com o dedo de Deus. O crescimento do grupo se deve, em boa parte, às benesses fiscais concedidas, primeiro, pelo Estado do Maranhão, e depois por outros governos vizinhos – descontos fiscais generosos, na casa das centenas de milhões de reais, quase arrancados a fórceps pelas negociações duras da empresa varejista. No meio do caminho, o grupo chegou a ser acusado pelo MP maranhense por participar de um esquema que “apagava” impostos devidos ao Estado durante o governo de Roseana Sarney, no escândalo conhecido como “Máfia da Sefaz”. No ano de 2020, Ilson Mateus entrou para a lista da Forbes de bilionários brasileiros, com fortuna estimada em R$20 bilhões.
A generosidade do Estado brasileiro com homens ricos é a marca que perpassa a trajetória das empresas de todos os super-ricos retratados na série.
Vejamos os “Rockfellers de Segipe”, os Franco, uma das famílias mais poderosas do Estado, cuja fortuna vem desde os tempos da escravidão. Segundo o pesquisador Bruno Vieira, a vastidão das terras da família é a base, mas o combustível da fortuna foram mesmo fomentos criados pelo governo federal a partir de 1930. Primeiro, houve o fomento do Instituto do Açúcar e Álcool (IAA), fundado por Getúlio Vargas em 1933 na esteira da crise de 1929. Depois, em 1975, o grupo foi beneficiado com o Programa Nacional do Álcool, o Proálcool. “O poder dos Franco vem das terras. Uma vez que eles já tinham terras, eles tinham os meios de produção – e conseguiram esses benefícios do Estado por serem empregadores”, diz o pesquisador.
Os fomentos ajudaram a concentrar ainda mais a terra nas mãos de poucos, aponta Vieira, que chegou a flagrar trabalhadores em condições precárias em uma das fazendas da família, conforme mostrou a reportagem de Ana Paula Rocha.
Outro dos super-ricos que investigamos foi a família Feffer, dona da Suzano, que detém a Aracruz celulose, um empreendimento de plantação de eucalipto que dominou a região de Sapê do Norte, nos municípios de Conceição da Barra e de São Mateus, no Espírito Santo.
A reportagem feita por Mariah Friedrich revela que depois que a Aracruz se instalou, na década de 1960, as comunidades quilombolas da região foram, aos poucos, sendo sufocadas pelo eucalipto. Antes da ocupação, havia 12 mil famílias quilombolas. Hoje, restam 2 mil. E elas seguem sem uma demarcação definitiva das suas terras, rodeadas por paredões de eucalipto e terra seca, uma prova de que o Estado corre para socorrer uns, enquanto deixa outros esperando à míngua.
A família Feffer sempre teve laços com o poder, inclusive durante a ditadura militar. Entre 1976 e 1979, o patriarca Max Feffer foi Secretário de Cultura, Ciência e Tecnologia de São Paulo durante o governo biônico – sem eleição popular. Pouco antes, o governo militar havia aprovado um novo Código Florestal que isentou de tributos as plantações para obter papel. O Código equiparava plantações industriais a matas nativas e declarou “florestas naturais ou plantadas” como imunes à tributação.
