Confesso que escrevo essa coluna com um nó na garganta e os sentimentos ainda misturados. Fazia um sábado lindo de sol em Berlim, 25 de julho. A cidade estava cheia para a Christopher Street Day Pride, a parada LGBT+ da capital alemã. O evento se chama Dia da Rua Christopher e é realizado anualmente em memória dos motins de Stonewall, que começaram num bar localizado na Christopher Street, em Nova York, em 1969, onde a comunidade LGBT+ se rebelou contra a repressão policial. Os números oficiais falam entre 700 mil a um milhão de pessoas nas ruas.
No dia anterior, eu havia trocado mensagens com meus amigos: “Vamos na Pride? Celebrar enquanto a gente ainda pode?” Com o avanço das pautas antigênero no mundo, mesmo em uma das cidades mais progressistas do mundo atualmente, como Berlim, se sente uma mudança nos ventos.
Me lembro que, quando vim morar aqui para estudar, uma das coisas que mais me fazia feliz era poder andar na rua sozinha de madrugada, independente da roupa, independente do bairro, da baixa iluminação das ruas, passar por debaixo de pontes, entrar em becos. Para uma mulher que passou boa parte de seus 40 anos vivendo em São Paulo lidando com assédio e medo constantes, isso era libertador.
Mas, justo no dia da Pride, pela primeira vez em 4 anos, eu decidi colocar um casaco fechado para voltar sozinha pra casa, à noite. E nem estava tão tarde. Meus amigos estranharam. Eu disse que não ando me sentindo mais tão segura.
É claro que isso não vem do nada. Meu trabalho é acompanhar as pautas e os desdobramentos das narrativas antigênero. Tenho visto, pouco a pouco, os políticos alemães aderindo ao que chamam de movimento “anti woke”, votando para retirar direitos da comunidade LGBT+ (inclusive por parte da co-líder do partido de extrema direita AfD, Alice Weidel, que é casada com uma mulher, mas nega ser homossexual), ao mesmo tempo em que defendem que a violência de gênero no país é causada única e exclusivamente por imigrantes, sobretudo por muçulmanos.
Recentemente, infiltrada em um congresso do partido Alternative für Deutschland (AfD), que já teve alguns de seus membros declarados neonazistas pelos serviços de inteligência nacionais, eu recebi logo na entrada uma pasta contendo um ranking, com o nome de países e a porcentagem de crimes cometidos na Alemanha por cidadãos dessas nacionalidades. O documento não indicava nenhuma fonte das informações e os números são contestados largamente por pesquisadores. Mas, no telão do evento, em looping, apareciam fotos de homens com nomes de origem árabe, junto a supostos crimes horrendos cometidos. “Fulano: estupro”, etc.
Não dá pra não lembrar um passado não tão distante.
Pessoas queer próximas a mim também têm sido hostilizadas nas ruas, sobretudo imigrantes. Recentemente, um amigo filipino foi provocado por um grupo de adolescentes alemães em um bar, apanhou e, quando a polícia chegou, levou apenas ele preso. Ele foi solto, mas ainda está sendo processado, o que complica seu pedido de visto.
Durante a parada LGBT+ no sábado, as ruas estavam coloridas, ocupadas por corpos dissidentes e diversos caminhando lado a lado, dançando; vi muitas crianças, bebês de colo, mulheres grávidas, todos se respeitando e se cuidando.
O slogan da marcha era “Haltung ist hot” (algo como “tomar uma posição é sexy”). Mais de 80 carros, representando órgãos oficiais, partidos políticos, organizações da sociedade civil e marcas, desfilaram essa bandeira.
Várias marchas acontecem simultaneamente na cidade. A CSD é a maior e mais comercial, mas existem também atos paralelos, independentes e autogestionados, com pautas políticas mais demarcadas, contra a xenofobia, contra o genocídio em Gaza, que não raramente sofrem repressão policial.
Por volta das 20:30, eu e meus amigos nos sentamos para descansar no Tiergarten, um parque grande que fica próximo ao fim da parada que acontece no portão de Brandemburgo. Decidimos ir embora para evitar o metrô lotado. Nos despedimos como sempre: “Manda uma mensagem quando chegar em casa”. Cheguei em casa, vi um filme e fui dormir. Os amigos foram pra outras festas. Acordei no domingo com dezenas de mensagens e ligações perdidas na madrugada.
