Latas de sardinha vazias que alimentaram famintos, pedaços de madeira que voaram de casas bombardeadas, tecidos retalhados dos que não sobreviveram. Omar olha para os objetos que encontra como se buscando ouvir o que eles têm a dizer e um motivo para levá-los.
Recolhe a sucata em sua sacola improvisada e anda muito até chegar ao pequeno alojamento no campo de refugiados.
Em uma pedra grande que serve de mesa, desamassa, corta e fura as latas. Dois furos em cima para os braços, dois furos embaixo para as pernas. Um furo no meio para a cabeça. Amarra cada braço e perna feitos de filetes de madeira nos furos correspondentes. Rasga os tecidos, costura com fios de eletricidade. Para as cabeças reserva as latas maiores, que ganham olhos grandes e bocas vermelhas. Veste os figurinos nas marionetes. Sempre gostou de contar histórias para as filhas, mas os tempos eram outros. Agora está sozinho.
Amira, a filha de quatro anos, era inquieta. Gostava de se esconder e desesperava o pai. Ela não entendia o que estava acontecendo. Já Yasmin, de seis anos, passava dias em silêncio.
Rania, sua mulher, usava o que aprendeu como enfermeira para ajudar os feridos. Nenhuma gaze, só panos velhos e poucos remédios. Depois de mais um longo dia de atendimento, chegou ao alojamento e logo se juntou ao grupo para preparar os alimentos recebidos. Levou as filhas, que ficaram brincando com algumas pedrinhas no chão, enquanto Omar saiu com outros homens para pegar galões de água.
Quando estavam quase terminando o carregamento, ouviu o som.
Omar viu de longe a grossa fumaça que se ergueu ao céu.
Voltou o mais rápido que conseguiu ao acampamento e, como um cão farejador, andou sobre os destroços ainda quentes. Depois, como um cão abandonado, passou a andar sem direção.
Curvado e com ossos saltando, passou dias olhando para o chão murmurando palavras que não faziam sentido. Ouvia Amira pedir para brincar, via os olhos de Yasmin amedrontados, sonhava com as mãos de Rania sobre as suas.
