Se há alguma coisa redonda e chutável, pode ser futebol. Essa é uma das regras não ditas do quintal, da rua e do campinho. Mas cada uma dessas modalidades do esporte possui suas próprias engenharias e peripécias.
O futebol de quintal é o coração dentro do coração. Precisa de um quintal, óbvio. Mas de que tamanho? Depende do tamanho das pernas da molecada. Ou do cachorro. No quintal todo mundo joga: visita, carteiro, capô de carro. Nem todo mundo aceitou de bom grado participar da partida, é preciso dizer. Às vezes o juiz pode ser a mãe, questionando o sequestro das vassouras ou dos dois vasos de Comigo Ninguém-Pode para ser a trave.
Entre as traves, o que passar é gol. Saco de lixo amarrado, pão duro, fruta madura, meia enrolada e até mesmo uma bola de mentira, totalmente presa ao mundo das ideias – diferente da bola-fruta-madura, que é absolutamente verídica. No quintal, os primeiros dribles, a primeira catimba e então o grito de “Você vai arrumar essa bagunça!”
Na rua, a coisa precisa ser um pouco organizada. A bola, se for de meia, deve ser caprichada. Porém, na rua quase sempre tem alguém com uma bola de futebol mais ou menos como as da tevê, com o som seco e inconfundível da disputa.
A bola de futebol também é o som que ela faz, que ecoa nos portões, agita cães (mesmo os mais preguiçosos) e bota alguns vizinhos para esticar o pescoço. É isso, tem público e ninguém pagou para assistir, o comprometimento é zero, mas, para cativar, vale o sacrifício.
Os tijolinhos marcam os limites e interditam o espaço para quem passar entender que há um jogo de futebol acontecendo ali. É senhora com compra na mão? Pode passar. Mulher com bebê de colo? Passa. Carro também pode passar. Criança pode, dependendo da criança. Para os outros, o futebol não para.
