Faltam seis meses para as eleições para o Congresso dos EUA, em 3 de novembro. Os índices de aprovação de Trump atingiram um mínimo histórico, e seu cai a cada semana, inclusive entre sua base republicana. Agora, surgem sinais de que o presidente está perdendo a lealdade republicana também no Congresso. E Trump parece não perceber que se encontra em sérias dificuldades diante da inflação crescente no plano interno, de uma guerra impopular contra o Irã e da dissidência em suas próprias fileiras.
Os republicanos detêm uma maioria de três cadeiras na Câmara e de quatro cadeiras no Senado. Isso significa que qualquer dissidência pode paralisar projetos de lei da Casa Branca ou fornecer aos democratas o apoio necessário para bloquear as prioridades legislativas de Trump. Significa também que existe uma possibilidade real de o presidente perder o controle do Congresso quando os eleitores forem às urnas para eleger todos os 435 membros da Câmara e um terço dos senadores.
Refletindo sua personalidade delirante, o presidente dos EUA insiste — com sua típica bravata — que tudo está absolutamente perfeito, tanto no plano interno quanto no externo. Parece que essa percepção foi reforçada por eventos recentes que ele considerou vitórias políticas pessoais.
O primeiro ocorreu em 29 de abril, quando a Suprema Corte dos EUA decidiu que disposições fundamentais da Lei de Direitos Eleitorais (Voters’ Rights Act) de 1965 eram inconstitucionais. Essa lei — fruto do movimento pelos direitos civis dos negros nas décadas de 1950 e 1960 — exigia que os estados com um histórico documentado de discriminação eleitoral obtivessem autorização do Departamento de Justiça dos EUA ou de um tribunal federal para poder alterar leis de votação ou mapas eleitorais que pudessem discriminar eleitores negros. A lei também permitia que os estados criassem distritos com maioria negra, a fim de garantir sua representação no Congresso.
A nova decisão da Suprema Corte, apoiada pelos seis ministros conservadores, anulou essas disposições da lei e permitiu que as legislaturas estaduais redesenhassem os mapas eleitorais com base em considerações políticas, em vez de raciais. Alguns analistas argumentam que isso poderia significar que a maioria dos representantes negros no Congresso, na região Sul, poderia perder seus assentos após a definição das novas fronteiras. Os novos mapas distritais diluiriam o peso dos apoiadores dos Democratas, dividindo-os em vários distritos vizinhos com claras maiorias brancas e pró-Republicanas — um processo conhecido como “gerrymandering”.
No dia seguinte à decisão da Suprema Corte, legislaturas estaduais controladas pelos Republicanos iniciaram o redesenho dos mapas eleitorais para impedir a concentração de eleitores Democratas leais em distritos que, historicamente, elegiam representantes negros para o Congresso. Essa ação seguiu um movimento de Trump no ano passado, quando o presidente conseguiu que legisladores republicanos no Texas redesenhassem as fronteiras distritais, dando a possibilidade de cinco assentos adicionais na Câmara dos Representantes.
Os Democratas da Califórnia e da Virgínia responderam ao gerrymandering do Texas com seus próprios esforços para conquistar assentos adicionais, por meio de dois referendos bem-sucedidos nos quais o eleitorado suspendeu leis estaduais que exigiam a atuação de comissões neutras e apartidárias para elaborar mapas eleitorais. Em ambos os estados, os novos mapas conferiram uma vantagem aos Democratas. Os questionamentos jurídicos apresentados pelos Republicanos contra o mapa da Califórnia não obtiveram êxito, mas a Suprema Corte da Virgínia decidiu que o referendo realizado naquele estado era inválido.
Visivelmente alarmado com a possibilidade de perder as eleições de meio de mandato, Trump começou a pressionar outras legislaturas estaduais para redesenharem seus mapas eleitorais. Entre elas, o estado de Indiana, onde cinco senadores estaduais Republicanos aliaram-se aos Democratas para bloquear tal iniciativa. Em resposta, Trump prometeu se vingar.
Depois disso, em 5 de maio, os apoiadores de Trump derrotaram os cinco Republicanos de Indiana que haviam se recusado a redesenhar o mapa eleitoral de seu estado. Então, em 16 de maio, um candidato republicano apoiado por Trump na Louisiana derrotou o senador em exercício Bill Cassidy, um dos dez senadores republicanos que haviam votado pelo impeachment de Trump após o ataque ao Capitólio dos EUA em 6 de janeiro de 2023.
Três dias depois, os eleitores das primárias republicanas rejeitaram o deputado federal do Kentucky Kenneth Massie, que havia sido um dos líderes no esforço bipartidário para a divulgação dos arquivos de Epstein. A vitória aconteceu depois de grandes doadores de Trump e Massie injetarem US$ 33 milhões na corrida eleitoral. Foi a eleição primária a mais cara da história recente.
As vitórias de Trump em Indiana e na Louisiana foram sinais de que o presidente ainda exercia controle incondicional sobre seus apoiadores leais e deram mais confiança a Trump de que, com os novos mapas eleitorais em estados-chave, os Republicanos serão capazes de manter o controle do Congresso.
