Eu não gostava muito de futebol, mas adorava pastel. Talvez por isso, todo aquele esforço de acordar às 6 da manhã aos domingos – fizesse frio ou calor, chuva ou sol – parecesse valer a pena. Depois do jogo do meu pai, era certo, comeríamos pastel. Assim eu tinha forças para levantar da cama, mesmo com o céu ainda escuro, e ia feito um zumbi até a cozinha tomar um leite com chocolate enquanto ele passava o café e ouvia as notícias no rádio.
O ônibus cruzava a cidade em direção ao campinho de terra. Meu pai já ia trocado, as chuteiras enfiadas no meião desbotado e o uniforme exalando cheiro de amaciante. Quando chegávamos, era preciso cumprimentar todo mundo. E eu ia, de um em um, a mãozinha de criança quase esmagada por aquela dezena de mãos firmes e calejadas. “Fala, Caneta!”, “Bom dia, Canetinha!”.
Depois, achava um lugar na mureta e ficava assistindo ao jogo, por vezes prestando pouca ou nenhuma atenção nos lances. Pensava no colégio, em algum desenho animado, na vizinha da frente, no sabor de pastel que eu poderia pedir na feira (embora sempre acabasse escolhendo queijo). Então vinha o apito final, o que nunca significava o fim do futebol, como fui descobrindo com o tempo. Ainda precisava esperar meu pai tomar banho e voltar para conversar com os amigos, beber cerveja, jogar dominó.
Eu ficava ali, flutuando por entre as mesas e vidrado na brasa da churrasqueira, a antena sempre alerta para fisgar o que os adultos diziam. Era engraçado como alguns tentavam disfarçar ou falar mais baixo quando iam compartilhar bobagens impróprias para menores. Só faziam me chamar mais a atenção. Meus ouvidos, treinados, captavam tudo.
Aí eu e meu pai trocávamos olhares em alguma oportunidade e pronto, era hora de ir. O momento do pastel. Nos banquinhos de plástico da barraca de feira, dividíamos uma garrafa de caldo de cana com limão ou abacaxi e falávamos sobre qualquer assunto. Na volta para casa, eu normalmente dormia em seu ombro, embalado pelo sacolejar do ônibus. Tudo parecia mais lento, a nova semana anunciada pela melancolia dos programas de auditório que já dominavam a televisão.
